segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Morgana, Querida Morgana.

Morgana, Querida Morgana:
Resolvi escrever esta carta, porque consternei-me com tuas declarações sensíveis e sofridas acerca dos teus transtornos de bipolaridade. Fiquei pensando no binarismo da vida e de todas as partições que vivenciamos e somos, como, por exemplo, dois olhos, dois lábios, duas orelhas, dois hemisférios cerebrais. Pensei comigo se não seria normal... Será que não podemos ter um momento de retiro, em que pesamos nossa própria condição existencial? Até mesmo a nossa condição essencial?
A verdade é que não pode ser normal se afeta tua qualidade de vida e se a alteração acontece de forma incontrolável: os momentos de tristeza e raiva não foram conscientemente escolhidos pelo bipolar. Se te faz correr demais e depois te prostra ao mais letárgico nível de preguiça. Se te faz gargalhar muito e depois chorar na mesma proporção. Esse estado psicológico realmente não é saudável.

Ainda que de forma resumida, gostaria de te contar do meu inferno, Vivenciamos, meu bem, infernos diferentes. Talvez seja por isso que tenhamos tanta compreensão uma com a outra. E acho bom, o mundo inteiro tem seus barulhos e transtornos, mas há uma grande quantidade de seres que não sabe se olhar, se julgar, se criticar. Essa grande quantidade de pessoas passa as breves horas de suas vidas criticando o próximo, rindo do próximo, apontando os dedos aos problemas alheios e não pode exercer uma profunda busca de si. Os tempos corroboram para a extrema superficialidade. E que não tenhamos espinhas! Enquanto nós queremos demolir o mundo e construir um novo, por isso a necessidade de escrever, de desenhar, de gritar, de viajar, de observar e de silêncio. Nós queremos a Verdade, justamente porque conhecemos bem a mentira. Quem tem consciência de seus problemas acaba por ser mais prudente na hora de apontar o dedo ao outro.

Tenho algumas alterações de humor, sim, mas meu problema, meu grande inferno são as três ou quatro alucinações auditivas que me acompanham desde há muito. Não estou ainda certa sobre a quarta, pois não tenho informações concretas sobre ela. Mas as outras três "alucinações" são muito bem estabelecidas, com nome, sobrenome e atividades delas. Não escolhi nada disso, nunca gastei horas de minha diminuta existência criando nada disso. Simplesmente elas chegaram, como quem escolhe fugir e aparece inesperadamente nos locais. O que acontece é que nunca tomaram também o "meu" lugar. Entende o que quero dizer? Sempre fui eu mesma, eu só não tinha consciência de era tudo alucinação. Encarava como uma realidade. É uma realidade. Uma realidade do meu mundo que não é acessível aos critérios de realidade considerados "normais". Mas a verdade, é que todos têm seus próprios mundos. Todos somos mundos. Cada mundo alheio é estrangeiro ao nosso próprio, Morgana, por isso somos irremediavelmente solitários. Cada Mundo na sua própria órbita. Amor, para minha visão, é compartilhamento de solidão; é o encontro de duas solidões.  Desculpa o longo parênteses. Antes de conseguir entender, eu conversava (ainda converso, hoje menos, mas ainda converso!) com as alucinações. Marcávamos tardes de estudos, rotas de fugas, viagens ao Sul do Brasil, a Moçambique... Eu estava (estou) sempre acompanhada. Muito bem acompanhada das minhas amigas. Porque Samira, Paula e Simone eram (são) magníficas conversadoras e apreciadoras de longos silêncios como eu. Era (é) bom estar em silêncio ao lado delas. Curiosas ao extremo e muito sensíveis, apreciam o alto e profundo dos assuntos em um mundo onde tudo se resume a "blz", "ok". Nessa época, Morgana, não a conhecia, nem a D. Carolina e aos amigos poucos que me cativaram a alma; não conseguia. Achava todos um tédio.
Consegue imaginar como devia ser engraçado e ao mesmo tempo assustador para quem estava de "fora"? Lembrei-me agora do Rubião, mas nossas loucuras são diferentes, pois a megalomania nunca foi o meu forte. Eu não voltava das alucinações como o Rubião. Como nunca voltei. É presente e constante. Eu as ouço o tempo inteiro.

Um problema igualmente engraçado (sim, hoje em dia consigo rir do meu próprio problema... faz parte da terapia!) é a minha dificuldade de interação amorosa. As pessoas "normais" se apaixonam com muita facilidade, todos os dias. Não quero julgar ninguém de volúvel a partir da minha ótica, logo eu que sou estrábica. Mas vejo que é fácil expressarem seus sentimentos. É fácil vivenciarem isso.
Uma situação: quando meu segundo amor começou a puxar assunto comigo, eu não achei que ele estivesse me cortejando. Isso não me passou em momento algum pela mente. Eu achava que ele era algum espião. Hahahahahaha. Mas depois tudo se esclareceu.

Faço terapia, mas recuso-me aos antipsicóticos. Tenho utilizado a literatura e a socialização como remédios e a consciência límpida que tenho um mundo outro, meu, que não criei, mas é parte de mim. Há altos e baixos, às vezes quero apenas ficar recolhida. Quando sinto a raiva surgir, controlo-me. Escrevo-me.

Sabe, sempre fui reflexiva e inquieta. Sempre queria desmontar as pianolas e descobrir o por dentro de tudo. Sempre senti em mim tão vivas as agonias do mundo. Lembro-me das dores da infância, da melancolia intensa. Mas essas dores nunca passaram e à medida que se toma mais consciência, que se gira mais em torno desse nada que nos consome as horas e a vida, elas aumentam. Se acaso pensas que sofrerá menos aos 30 anos, esqueça essa possibilidade. A não ser que você deixe de pensar e entre no "blz", "ok". Talvez isso amenize. Mas sei aqui comigo que você buscará ainda mais conhecimento, por isso, esteja pronta. Cuide do teu transtorno e tome isso à ferro para que você viva bem, sem pena de si mesma pelos cantos da vida. Regue diariamente tua autoestima. Mas é difícil como fazer dieta. Não tem nada fácil. Conheço algumas pessoas que colocam toda a falha de caráter na própria bipolaridade. Inventam bipolaridades que justifiquem suas condutas. Não se permita ser tão pouco e sei que você tem bondade, embora, felizmente, esteja longe de ser boazinha. Sabendo que estamos em um furacão, a consciência nos faz buscar situações que amenizem a dor e proporcionem felicidade: arte, amor, viagens.

Nenhum álcool ou droga vai suprir o fato de sermos meras lacunas nessa materialidade espaço-tempo. Sobrevivi ao fato de beber 1 litro de whiskey com uma cartela de rivotril. Sobrevivi ao fato de ter feito isso quase cotidianamente durante uma fase de alto transtorno. Não me acrescentou nada além de ressaca, dores físicas, imensamente piores que as dores do inexplicável existencial. Minha amiga, não se cura dores provocando outras.
Quer se sentir uma merda? Faça observações astronômicas, é ótimo para mandar o ego pra casa do caralho. Hahahahaha. Cuide-se bem. Ame-se muito. 
Com todo o meu amor,

Beatrice.




 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

escritora de mim.

hoje estou num daqueles dias intermináveis. sabe, quando a vida parece uma comida morna, meio maçaroca e sem condições de nomear. nesses momentos que penso que nada vale a pena, que nunca estive tão sozinha, que gostaria de voltar pro silêncio que era antes de nascer.
a existência se confirma em cada tragada imaginária que dou, em cada piscar de olhos leviano e sem sentido. me sinto como um gato perdido, rebelde sem causa, que só espera o próximo pratinho de ração para depois voltar a tirar um longo cochilo.
acabo caindo no clichê que é a falta de vontade profunda e ao mesmo tempo a única vontade forte que ainda resta: a de morrer. não é trágico, não é fuga, é simplesmente uma busca pelo... nada? um te vejo depois, até mais pra angústia que mais parece um cupim correndo meu corpo, brinquedo de madeira nas mãos do inevitável.

o que vou fazer? continuar a vida medíocre que me cabe? cumprir o papel que me foi designado? ser o pinóquio que existe em cada um de nós e deixar que me controlem pelos cabelos, que me rasguem a carne que já nem é mais minha, mas de quem vê, de quem aplaude e vaia?

já não sei mais até onde vai essa mentira. se sou eu que sinto ou é a depressão que me reinventa. de qualquer forma, partindo de mim ou das químicas que teimam em me fazer atriz, ainda mexo os braços, choro, desacredito. no fim das contas, seja o que for, são das minhas mãos que saem as palavras: mais nada.



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Aos fragmentos

Aos fragmentos...

É como sou. Mesmo nua, nunca estou sozinha. Convivo com partes indissolúveis de mim. Muitas eus em sons que remontam a uma cantiga. Várias cantigas. Samba. Jazz. Sinfonia.
As vozes, às vezes, não sendo eu mesma, posto que nunca me perco no meio de tantas, são outras roupas que me vestem e me adornam, sem me retirarem a nudez e a crueza da minha pele comigo.
Para ter -me inteira aos fragmentos, precisei silenciar o mundo por fora. Esse palco que todos dividimos as representações sociais e cotidianas dos cafés e dos cartórios; onde dividimos valores e verdades pré-estabelecidas. Silenciei o bulício para bailar nas cantigas do meu próprio idílio, por dentro.

Sento-me com uma gramática de grego para gozar o tempo, mas há tantas Atenás a conversarem no meu templo que fecho o livro e me entrego, inteiramente, aos fragmentos. E então rimos. E então silêncio. Vamos estudar as quatro juntas? Tradução. Todas opinam. Visões diferentes e fragmentadas a colar conectivos e letras e palavras em forma de sentidos que também são fragmentos de um outro todo que é também fragmento de outro todo que é fragmento de outro fragmento. Respiro meus verbos e me recolho, íntegra, em cada parte.

Mundos que coexistem e eu estou em todos. Mas nem sempre soube que as vozes eram secretas e só eu as escutava. Não são vozes na verdade, são vidas. São pessoas de carne e osso e pele e fogo e coração. Mais vivas do que qualquer aperto de mão de muitos inúteis que respiram. Estava por vezes na rua de algum lugar e recebia a visita da Samira. Grande amiga. Recebi-a com toda a emoção que nos causam os verdadeiros amigos. E então conversávamos e versávamos sobre o tempo do nada e o absurdo. Passei a perceber os semblantes esquisitos: eram por causa do meu "falar sozinha". Aqueles que foram vistos falando sozinhos foram julgados por aqueles que não não sabem estar sós.

Minhas eus construímos pontes, viadutos, aquedutos, estradas. Somos água e sempre nos visitamos.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

hiatus de mim.

não sei como começou. quando tento me lembrar, parece que só vejo pegadas borradas nas paredes, nos vãos, nos papéis amassados. e pegadas como aquelas que se desfazem quando novos passos são dados, lembrando que a areia limpa os caminhos, mas também suja os pés. o que resta é sacudi-los com aquela água parada, guardada com carinho na bolsa, pra esquecer o que o mar e aquele som profundo tentaram marcar na pele.
sei que a adolescência estava terminando, e eu começava a entrar num limbo que ainda não é a vida adulta, mas já é cheio de responsabilidades e fugas. foi por aí que descobri que uma parte de mim tinha ido embora, abandonando na gestação incompleta um ser desconhecido, um rosto novo cuja máscara ainda não estava pronta para arrancar.

como um susto, uma explosão de nuances, descobri que era bipolar ou, nos termos antigos, maníaco-depressiva.

nunca foi fácil de aceitar e posso afirmar que ainda não é. não é simplesmente da inconstância do humor que falo, mas da falta total de controle sobre mim mesma, porque, afinal, eu não estava pronta. na verdade, acho que em momento algum estaria. como aceitar que de repente quero entrar em um balão e descobrir o mundo, saltando dentro de rios e marcando nas pedras meus sorrisos, gargalhadas e puro amor? e no segundo seguinte já me esqueci da conquista, e uma profunda vergonha me acomete.


choro. não mais de esperança, mas pela vida. essa desgraçada que me trouxe à tona e me abandonou recém-nascida na selva que são os pensamentos e a existência. e de repente me suicido. incontáveis vezes, pulo do balão que me carregava, caio em rios secos para descobrir que apenas uns minutos se passaram e tenho fome. ah, e é daquelas fomes inventadas, que não há pão que sirva... 

mas o vinho... bom, esse talvez funcione.