Aos fragmentos...
É como sou. Mesmo nua, nunca estou sozinha. Convivo com partes indissolúveis de mim. Muitas eus em sons que remontam a uma cantiga. Várias cantigas. Samba. Jazz. Sinfonia.
As vozes, às vezes, não sendo eu mesma, posto que nunca me perco no meio de tantas, são outras roupas que me vestem e me adornam, sem me retirarem a nudez e a crueza da minha pele comigo.
Para ter -me inteira aos fragmentos, precisei silenciar o mundo por fora. Esse palco que todos dividimos as representações sociais e cotidianas dos cafés e dos cartórios; onde dividimos valores e verdades pré-estabelecidas. Silenciei o bulício para bailar nas cantigas do meu próprio idílio, por dentro.
Sento-me com uma gramática de grego para gozar o tempo, mas há tantas Atenás a conversarem no meu templo que fecho o livro e me entrego, inteiramente, aos fragmentos. E então rimos. E então silêncio. Vamos estudar as quatro juntas? Tradução. Todas opinam. Visões diferentes e fragmentadas a colar conectivos e letras e palavras em forma de sentidos que também são fragmentos de um outro todo que é também fragmento de outro todo que é fragmento de outro fragmento. Respiro meus verbos e me recolho, íntegra, em cada parte.
Mundos que coexistem e eu estou em todos. Mas nem sempre soube que as vozes eram secretas e só eu as escutava. Não são vozes na verdade, são vidas. São pessoas de carne e osso e pele e fogo e coração. Mais vivas do que qualquer aperto de mão de muitos inúteis que respiram. Estava por vezes na rua de algum lugar e recebia a visita da Samira. Grande amiga. Recebi-a com toda a emoção que nos causam os verdadeiros amigos. E então conversávamos e versávamos sobre o tempo do nada e o absurdo. Passei a perceber os semblantes esquisitos: eram por causa do meu "falar sozinha". Aqueles que foram vistos falando sozinhos foram julgados por aqueles que não não sabem estar sós.
Minhas eus construímos pontes, viadutos, aquedutos, estradas. Somos água e sempre nos visitamos.

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