Morgana, Querida Morgana:
Resolvi escrever esta carta, porque consternei-me com tuas declarações sensíveis e sofridas acerca dos teus transtornos de bipolaridade. Fiquei pensando no binarismo da vida e de todas as partições que vivenciamos e somos, como, por exemplo, dois olhos, dois lábios, duas orelhas, dois hemisférios cerebrais. Pensei comigo se não seria normal... Será que não podemos ter um momento de retiro, em que pesamos nossa própria condição existencial? Até mesmo a nossa condição essencial?
A verdade é que não pode ser normal se afeta tua qualidade de vida e se a alteração acontece de forma incontrolável: os momentos de tristeza e raiva não foram conscientemente escolhidos pelo bipolar. Se te faz correr demais e depois te prostra ao mais letárgico nível de preguiça. Se te faz gargalhar muito e depois chorar na mesma proporção. Esse estado psicológico realmente não é saudável.
Ainda que de forma resumida, gostaria de te contar do meu inferno, Vivenciamos, meu bem, infernos diferentes. Talvez seja por isso que tenhamos tanta compreensão uma com a outra. E acho bom, o mundo inteiro tem seus barulhos e transtornos, mas há uma grande quantidade de seres que não sabe se olhar, se julgar, se criticar. Essa grande quantidade de pessoas passa as breves horas de suas vidas criticando o próximo, rindo do próximo, apontando os dedos aos problemas alheios e não pode exercer uma profunda busca de si. Os tempos corroboram para a extrema superficialidade. E que não tenhamos espinhas! Enquanto nós queremos demolir o mundo e construir um novo, por isso a necessidade de escrever, de desenhar, de gritar, de viajar, de observar e de silêncio. Nós queremos a Verdade, justamente porque conhecemos bem a mentira. Quem tem consciência de seus problemas acaba por ser mais prudente na hora de apontar o dedo ao outro.
Tenho algumas alterações de humor, sim, mas meu problema, meu grande inferno são as três ou quatro alucinações auditivas que me acompanham desde há muito. Não estou ainda certa sobre a quarta, pois não tenho informações concretas sobre ela. Mas as outras três "alucinações" são muito bem estabelecidas, com nome, sobrenome e atividades delas. Não escolhi nada disso, nunca gastei horas de minha diminuta existência criando nada disso. Simplesmente elas chegaram, como quem escolhe fugir e aparece inesperadamente nos locais. O que acontece é que nunca tomaram também o "meu" lugar. Entende o que quero dizer? Sempre fui eu mesma, eu só não tinha consciência de era tudo alucinação. Encarava como uma realidade. É uma realidade. Uma realidade do meu mundo que não é acessível aos critérios de realidade considerados "normais". Mas a verdade, é que todos têm seus próprios mundos. Todos somos mundos. Cada mundo alheio é estrangeiro ao nosso próprio, Morgana, por isso somos irremediavelmente solitários. Cada Mundo na sua própria órbita. Amor, para minha visão, é compartilhamento de solidão; é o encontro de duas solidões. Desculpa o longo parênteses. Antes de conseguir entender, eu conversava (ainda converso, hoje menos, mas ainda converso!) com as alucinações. Marcávamos tardes de estudos, rotas de fugas, viagens ao Sul do Brasil, a Moçambique... Eu estava (estou) sempre acompanhada. Muito bem acompanhada das minhas amigas. Porque Samira, Paula e Simone eram (são) magníficas conversadoras e apreciadoras de longos silêncios como eu. Era (é) bom estar em silêncio ao lado delas. Curiosas ao extremo e muito sensíveis, apreciam o alto e profundo dos assuntos em um mundo onde tudo se resume a "blz", "ok". Nessa época, Morgana, não a conhecia, nem a D. Carolina e aos amigos poucos que me cativaram a alma; não conseguia. Achava todos um tédio.
Consegue imaginar como devia ser engraçado e ao mesmo tempo assustador para quem estava de "fora"? Lembrei-me agora do Rubião, mas nossas loucuras são diferentes, pois a megalomania nunca foi o meu forte. Eu não voltava das alucinações como o Rubião. Como nunca voltei. É presente e constante. Eu as ouço o tempo inteiro.
Um problema igualmente engraçado (sim, hoje em dia consigo rir do meu próprio problema... faz parte da terapia!) é a minha dificuldade de interação amorosa. As pessoas "normais" se apaixonam com muita facilidade, todos os dias. Não quero julgar ninguém de volúvel a partir da minha ótica, logo eu que sou estrábica. Mas vejo que é fácil expressarem seus sentimentos. É fácil vivenciarem isso.
Uma situação: quando meu segundo amor começou a puxar assunto comigo, eu não achei que ele estivesse me cortejando. Isso não me passou em momento algum pela mente. Eu achava que ele era algum espião. Hahahahahaha. Mas depois tudo se esclareceu.
Faço terapia, mas recuso-me aos antipsicóticos. Tenho utilizado a literatura e a socialização como remédios e a consciência límpida que tenho um mundo outro, meu, que não criei, mas é parte de mim. Há altos e baixos, às vezes quero apenas ficar recolhida. Quando sinto a raiva surgir, controlo-me. Escrevo-me.
Sabe, sempre fui reflexiva e inquieta. Sempre queria desmontar as pianolas e descobrir o por dentro de tudo. Sempre senti em mim tão vivas as agonias do mundo. Lembro-me das dores da infância, da melancolia intensa. Mas essas dores nunca passaram e à medida que se toma mais consciência, que se gira mais em torno desse nada que nos consome as horas e a vida, elas aumentam. Se acaso pensas que sofrerá menos aos 30 anos, esqueça essa possibilidade. A não ser que você deixe de pensar e entre no "blz", "ok". Talvez isso amenize. Mas sei aqui comigo que você buscará ainda mais conhecimento, por isso, esteja pronta. Cuide do teu transtorno e tome isso à ferro para que você viva bem, sem pena de si mesma pelos cantos da vida. Regue diariamente tua autoestima. Mas é difícil como fazer dieta. Não tem nada fácil. Conheço algumas pessoas que colocam toda a falha de caráter na própria bipolaridade. Inventam bipolaridades que justifiquem suas condutas. Não se permita ser tão pouco e sei que você tem bondade, embora, felizmente, esteja longe de ser boazinha. Sabendo que estamos em um furacão, a consciência nos faz buscar situações que amenizem a dor e proporcionem felicidade: arte, amor, viagens.
Nenhum álcool ou droga vai suprir o fato de sermos meras lacunas nessa materialidade espaço-tempo. Sobrevivi ao fato de beber 1 litro de whiskey com uma cartela de rivotril. Sobrevivi ao fato de ter feito isso quase cotidianamente durante uma fase de alto transtorno. Não me acrescentou nada além de ressaca, dores físicas, imensamente piores que as dores do inexplicável existencial. Minha amiga, não se cura dores provocando outras.Quer se sentir uma merda? Faça observações astronômicas, é ótimo para mandar o ego pra casa do caralho. Hahahahaha. Cuide-se bem. Ame-se muito.
Com todo o meu amor,
Beatrice.

Sim, hoje entendo melhor esses processos, os seus ali escritos, os meus comigo. E digo então que vivemos tempo demais nessa sociedade dita "dos normais" e seus motivos competitivos, até o ponto da fragmentação. Agora estou mais aberto a encontrar minha verdade... Uma parte veio com a poesia, outra com os jogos criativos que me lanço, e finalmente entrei no processo "poetacênico" do Hotel e Spa da Loucura, com gente que entende do assunto. Entre tantos "ok", "belê" etc. ou outras grandes mentiras coletivas expressas na vontade de poder, no senso comum dos televisores, hoje entendo que o caminho é olhos nos olhos, cuidar do outro, esses outros que logo cuidarão de mim - um novo caminho se abre quando a verdade é a boa saúde das nossas relações. Espero estar perto de ti quando Zumbi chegar! Beijos! [Xandu]
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